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Colégio Santa Catarina de Juiz de Fora: consumo consciente, empreendedorismo social e doação de brinquedos

No mundo capitalista em que vivemos faz-se cada vez mais necessário educar financeiramente nossos filhos para que eles saibam lidar com os apelos consumistas. O conflito entre querer, poder, merecer e precisar é inevitável a qualquer família. Nesse cenário, o Colégio Santa Catarina (CSC) de Juiz de Fora, implantou, a partir deste ano, aulas de Matemática Financeira com alunos das 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries. O objetivo é trabalhar noções básicas de empreendedorismo e Economia.

“Antes, a Matemática II trabalhava apenas Geometria ou reforço da Matemática I, mas, desde o início do ano, nós incorporamos a matemática financeira no nosso currículo. A proposta é que os alunos tenham mais consciência do mundo em que eles vivem, tenham noção do que é caro, do que é barato. É mesmo para transmitir um conhecimento básico e que, a partir disso, haja uma mudança comportamental neles e também nas famílias”, explica Rosângela Santos, professora responsável pela disciplina.

Rosângela trabalha com as turmas questões, por exemplo, de promoções, cartão de crédito, código de barras, nota fiscal e redução de gastos. E já colhe alguns frutos. “Na 6ª série eu trabalhei a importância de economizar com gastos supérfluos e investir o dinheiro poupado em coisas mais necessárias. Aí, uma aluna veio me contar que antes ela gastava 15 reais por semana com guloseimas e reduziu para cinco reais. Outra menina me disse que comia cinco açaís na semana e diminuiu para um, e com o dinheiro poupado ela está ajudando os pais a guardar dinheiro para a festa de 15 anos dela”, conta entusiasmada.

E os resultados não param por aí. Com as turmas de 7ª e 8ª séries, Rosângela decidiu fazer um trabalho interdisciplinar com as professoras de Português, Ana Cristina de Souza Costa e Vera Francis. Os alunos tiveram que ler o livro “A ponte mágica”, de Fernando Dolabela, que conta a história de uma menina de 11 anos que cria sua primeira empresa para realizar o sonho de construir uma casa para uma amiga pobre que havia perdido tudo numa enchente. “Esse livro coube perfeitamente a nós porque tem um linguajar adequado, lúdico, mais próximo dos alunos. Além de mostrar que empreendedorismo não tem idade, o livro também prega que todos nós temos capacidade para traçar nosso próprio caminho, porque a personagem é criativa e cheia de garra. No início, ninguém acreditava nos sonhos dela, mas ela não desistiu e correu atrás”, afirma Rosângela.

Enquanto Rosângela trabalhou os aspectos financeiros abordados na história, Ana Cristina focou na parte literária. “Para alcançar seu objetivo, a personagem fez um mapa dos sonhos, ou seja, ela traçou metas para conseguir arrecadar fundos e construir a casa da amiga. E o livro ensina direitinho como fazer isso. Então, eu pedi que os alunos fizessem o seu próprio mapa do sonho, não pensando num objetivo pessoal, mas no coletivo. E aí surgiram coisas incríveis. Teve uma aluna que estruturou um portfólio maravilhoso para montar um abrigo para idosos. E eu perguntei, mas por que idoso? E ela respondeu que na casa dela tem muito idoso e que eles necessitam de muitos cuidados. Foi bacana ver que eles tinham percepção do que eles queriam”.

Segundo Ana, também surgiram muitas ideias envolvendo a questão da reciclagem de lixo, o que demonstra uma preocupação ambiental. “Mas o forte dos trabalhos, em geral, deu destaque para idoso e criança e animal”, ressalta a professora.

E entre as inúmeras ideias expostas no “mapa dos sonhos” apresentado por cada aluno, uma foi colocada em prática e começou a virar realidade. Com a proximidade do Natal, as professoras acharam viável concretizar a fábrica de brinquedos recicláveis proposta pelo aluno Lucano Ribeiro Borges, que sugeriu doar tudo o que fosse produzido para alegrar a vida de crianças carentes. “Conversando com minha mãe sobre o que eu podia fazer, nós nos lembramos de um priminho meu que, sem muitos recursos financeiros, fica brincando com tampinha de garrafa que faz de pião. E como ele, muitas crianças devem improvisar para ter com que brincar. Aí, nós chegamos juntos a essa ideia porque é possível brincar e se divertir com coisas que não sejam tecnológicas ou industrializadas”, conta o estudante, bastante feliz de ver o sonho virando realidade.

A ideia de Lucano foi apresentada também aos demais alunos da 7ª série e todos se mobilizaram para ajudar. O resultado surpreendeu as professoras envolvidas, a coordenação e a direção do CSC. “A gente não imaginava que eles fariam os brinquedos com tanta seriedade e prazer. O livro, além de ensinar o que é empreendedorismo, serviu também para motivar e mostrar que qualquer pessoa pode ser um empreendedor e gerar benefício coletivo. Eles entenderam a importância de olhar para o próximo, ou seja, banir a ideia de ser um empresário famoso e rico, mas sim, de gerar solidariedade e benefício para a sociedade em geral”, destaca Ana Cristina.

E criatividade não faltou aos alunos na hora de “produzir” os brinquedos. Foram feitos animais de diversas espécies, aviões, helicópteros, submarino, carrinhos, trenzinhos, bonecas, palhacinhos, joguinhos, biboquês, telefone sem fio, pé de lata, entre outros. Os materiais utilizados também variaram: latas de achocolatado, garrafas pet, E.V.A. palitos de picolé, pregadores, feltro, recipientes de amaciante, tampinhas de garrafa e caixas de leite, por exemplo. Tudo o que foi confeccionado com tanto carinho, fará a alegria de 160 crianças carentes assistidas pelo Centro de Atenção ao Menor (Ceprom), localizado na Vila Ideal. O local foi escolhido porque os alunos do CSC já realizam lá um trabalho, através do Voluntariado Jovem.

“Depois de ler o livro ‘A ponte Mágica’ e fazer esse trabalho, eu aprendi que você não pode deixar ninguém falar por você e podar seus sonhos. Você tem que seguir em frente e aqueles que estiverem juntos, estarão juntos. Vi que é possível, desde cedo, ser um empreendedor e colocar em prática um projeto, um sonho. Já em relação a dinheiro, eu fiquei mais consciente. Antes era compra isso pra mim, compra aquilo pra mim. Eu não tinha noção de quanto custava. Agora eu já entendo mais como é pagamento, juros e ajudo a poupar. E a minha mãe está super satisfeita com tudo isso”, conta Lucano, entre risos.

Um pouco mais sobre as aulas de Matemática Financeira

Todos os alunos do Ensino Fundamental II do CSC, desde a 5ª série (ou 6º ano) até a 8ª série, têm aula de educação financeira uma vez por semana. De acordo Rosângela, o conteúdo abordado varia de acordo com a idade, sempre conciliando a matemática. “E eu sempre procuro mostrar que o comprador compulsivo é uma anomalia. Eu trabalho porcentagem, código de barra, notas fiscais, promoções, juros sempre com situações do cotidiano. E com isso, a matemática ficou mais prazerosa, porque eles conseguem ver a aplicação da disciplina no dia a dia. Eu, pelo menos, senti muito mais participação nas minhas aulas”, avalia a professora.

O próximo trabalho que Rosângela vai desenvolver com os alunos será o de criar ou recriar um produto para melhorar a vida da população, também com o objetivo de despertar o lado empreendedor. E depois desse primeiro desafio, eles terão que vender suas ideias. “Metade da turma será de criadores e a outra metade de investidores. Porque, às vezes, você sabe criar algo, mas não sabe divulgar ou não tem dinheiro para investir”, explica Rosângela, que tem um sonho ambicioso: “Mais para frente já estamos com a ideia de montar uma empresa aqui no colégio, que seria coordenada pelos próprios alunos e engajá-los também em projetos sociais e ambientais”.

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