10 de Setembro – Dia Mundial da Prevenção de Suicídio

 

(….) não se pode esquecer que o suicídio não é nada mais que uma saída, uma ação, um término de conflitos psíquicos”. Freud (1910)

Dia 10 de setembro é o dia mundial da prevenção do suicídio, um drama humano que atrai questões complexas, tendo já sido abordado exaustivamente pela sociologia, filosofia, teologia, psicologia e medicina.

A grande abrangência do assunto acontece porque o suicídio é um drama não apenas pessoal, mas se configura como uma delicada relação entre fatores pessoais (emocionais e biológicos), momento histórico, contexto político e social. São vários os exemplos de como, ao longo da história, o suicídio apresentou diferentes contornos, tendo sido visto como um ato de honra, como na era dos samurais japoneses, passando pelas missões militares suicidas da antiga Alemanha nazista e União Soviética. Também pode ser tido como uma forma de protesto capaz de levar à morte, havendo diversos exemplos de auto-imolação, como a greve de fome, que culminou com a morte de dez pessoas em 1981, durante o Conflito na Irlanda do Norte, e tendo como exemplo mais recente, a greve de fome do líder indiano Anna Hazare, que apenas se encerrou quando seu país concedeu a apelos contra a corrupção na política.

Apesar de assumir tantas diferentes formas, o suicídio do qual estamos tratando neste dia 10 de setembro, é aquele em que o sujeito encontra uma forma de dar ao corpo uma morte que já ocorreu na psique, o que faz com que nesta data pensemos em um alerta para a saúde pública sobre como tratar da prevenção do suicídio.

Segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde, em termos globais, a mortalidade por suicídio aumentou 60% nos últimos 45 anos, representando nas estatísticas de 2003, uma morte a cada 40 segundos. Os números ficam ainda mais alarmantes quando revelam que o suicídio é a primeira causa de morte por violência no mundo, ficando à frente dos homicídios, acidentes de trânsito e conflitos armados.

Além do comportamento suicida per se, devemos lembrar-nos daqueles que estão próximos a um indivíduo que apresente tal comportamento. Segundo a OMS, para cada suicídio há, em média, cinco ou seis pessoas próximas ao falecido que sofrem consequências emocionais, sociais e econômicas.

O Brasil vem acompanhando as tendências mundiais de aumento na taxa de suicídio, que já ocupa o terceiro lugar entre as causas de morte não naturais, atrás da mortalidade por acidentes de trânsito e homicídio. Um estudo de José Manoel Bertolote, brasileiro que já integrou o Departamento de Saúde Mental na OMS, e colaboradores , a taxa de suicídio no país cresceu 21% no período de 1980 e 2000. Chama a atenção que a população jovem é a que apresentou o maior crescimento: o grupo de 15 a 24 anos apresenta mortalidade dez vezes maior no período.

O que fazer para prevenir o suicídio?

Antes de tudo, devemos compreender que apesar do suicídio não ser necessariamente a expressão de uma doença, os transtornos mentais, especialmente a depressão, esquizofrenia e dependência de álcool, representam atualmente os maiores fatores de risco para suicídio. O tratamento de sobreviventes de tentativas de suicídio mostra que a maioria destas pessoas não desejava de fato morrer, porém não conseguiam vislumbrar uma situação melhor diante da dor psíquica.

Certamente muitas pessoas poderiam ter sido ajudadas antes de chegarem a suicidarem-se caso pessoas próximas, como amigos e familiares, fossem capazes de discernir situações de risco. Cabe aos equipamentos públicos de saúde promover debates na sociedade que visam a informar e sensibilizar as pessoas de que o suicídio é um problema de saúde que pode ser prevenido quando corretamente abordado e encaminhado. Entretanto, o tema ainda tem uma aura de tabu, e mesmo a imprensa tem algumas restrições em publicar sobre o suicídio, contribuindo também para que o assunto não circule na sociedade. A ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria publicou em 2009 um manual à imprensa sobre como abordar o assunto de maneira apropriada e responsável, o que significa um importante avanço para trazer o assunto aos veículos de comunicação de modo que possa auxiliar na prevenção, mesmo que de maneira indireta.

A população geral, entretanto, não é o único grupo que necessita de maior esclarecimento sobre os fatores de risco e manejo do suicídio. Os profissionais de saúde, especialmente aqueles que trabalham na atenção primária, também deveriam se beneficiar de maiores informações sobre a avaliação dos riscos e manejo do comportamento suicida. Segundo a OMS, é sugerido que entre 40 e 60% das pessoas que cometeram o suicídio consultaram um médico no mês anterior ao suicídio.

A experiência em saúde mental nos mostra que todas as ameaças de suicídio devem ser levadas em consideração, sendo um indicativo de que aquela pessoa está sofrendo e trazendo um pedido de ajuda. Deve-se alertar para a demonstração de sentimentos de desamparo, desesperança e desespero – os três D da prevenção ao suicídio. O profissional de saúde treinado pode trabalhar adequadamente o sentimento de ambivalência entre viver e morrer da pessoa suicida antes que esta, não encontrando qualquer apoio, tome a decisão de suicidar-se.

 

Para saber mais:

Cartilhas educativas da OMS:
http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/country_reports/en/index.html
http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_gp_port.pdf
http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_phc_port.pdf

Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio:
http://www.iasp.info

 

AUTOR:

Daniella Valverde, psicóloga da unidade de internação do PAI-ZN, organização social de saúde gerida pela Associação Congregação de Santa Catarina.

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